Narcís
Comadira
(Girona, 1942)
AS CIDADES
FALCOARIA
AS CIDADES
Li uma vez que Morosini,
general, embaixador
de Veneza, quis
levar consigo as esculturas
do frontão do Pártenon.
Mandou montar um andaime,
mandou trepar os escravos
e, no momento mais difícil,
alguma escora falhou.
Tombaram homens e estátuas.
Decepcionado, o general
abandonou o seu projecto.
Ele queria-as inteiras.
Os pedaços assim
espalhados
serviram para construir
casas.
Muitos sábios meditaram
sobre o mistério
surpreendente
de poder criar beleza
a partir de um bloco de
mármore.
Poucos sobre o caminho
contrário.
Obter um silhar adequado
do torso de algum deus
antigo,
converter em cascalho uma
vénus,
poder pisar paralelipípedos
feitos de membros sagrados...
Assim se fizeram as cidades:
lentamente construidas
com pedras que ontem foram
vidas humanas: amores,
sofrimentos que ninguém
recorda.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
FALCOARIA
Agora sou um falcão
e sobre a mão
do meu dono me firmo. O
ar puro da manhã
respiro e o cheiro do veludo
e das martas, o suor dos cavalos,
o feno pisado, os vapores
que sobem da terra.
Ervas e florinhas, tapete
axadrezado que verei
das alturas quando em círculos,
magnificente
observe os meus domínios,
a pradaria, os arbustos,
o regato, a fugidia lebre.
E os cavalos, os cães,
o dono
com os seus cavaleiros
e o falcoeiro-mor,
pagens e servidores, todos
iguais de tão pequenos,
espalhados pelo prado...
Agora o dono disse-me:
quero uma grande lebre,
cheirosa de lentisco (o
meu dono é poeta),
enquanto me acariciava
a plumagem com o dedo.
Sinto-me imperador, na
mão do meu dono, firme,
com o meu capuz de couro
todo enfeitado.
Há movimento, alvoroço,
relinchos, escarvar
e os moços dos canis
que libertam e incitam os cães.
Aproxima-se o momento,
o dono afaga-me,
quer uma grande lebre,
cheirosa de lentisco
(eu também sou poeta).
O coração pulsa com violência
e nestes momentos, agora,
eu sou o dono e senhor
do mundo e da gente. Todos
dentro do meu círculo,
de mim pendentes, esperando
como me perco e regresso,
como o meu voo se vai cingindo,
calculando
ao ver a lebre temerosa.
Os olhos são como
setas, as garras agudizam-se
e uma dulcíssima
vertigem me possui.
São um só
céu e terra, árvores e nuvens, a erva e a pele
arisca da lebre. Nada vejo.
Uma força
me arrasta para o fundo,
para o poço do nada,
desço como um relâmpago.
Por qual
vontade me pauto?
Qual a força obscura
que me arrasta, que fios
movem as minhas asas, que
fogo
poderá aquecer tanto
o sangue do meu corpo?
Agora tenho já
nas garras a lebre morta,
cheirosa de terra e de
lentisco.
Tudo terminou, já
se afundou o império.
O falcoeiro-mor
deixará que eu destroce
um pedaço do cálido fígado...
Depois o dono rirá
com os seus amigos
e eu me sentirei ridículo
com o meu capuz cheio de
fitas.
Dura sempre tão pouco
aquilo que nos permite
o esquecimento!
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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