Feliu
Formosa
(Sabadell, 1934)
ÚLTIMA
MEDITAÇÃO
BATERÁS
DUAS VEZES
AMPLOS
SÃO OS CAMINHOS...
ÚLTIMA MEDITAÇÃO
Sou amigo da tarde de inverno
que me dispõe a um poema
que não pode ser
escrito. Sou amigo da ideia perdida,
do esforço inútil
para que umas palavras soem dentro do vale
que me fez como agora sou
e do muro do qual é raro sair.
Enquanto volto a amar a
saudade do adolescente
que fui no tempo em que
bem pouco sabia de Mozart,
sou amigo da tarde de inverno
que me dispõe ao poema.
É difícil
salvar as fronteiras do puro exercício
e compreender a linguagem
arriscada dos objectos inertes.
Vezes sem conta vi o castelo
que domina
as terras onde foi cultivado
este gesto da mão
que acaricia a aquecida
pedra, a terra dos meus avós,
sabendo bem que o desejo
de o imitar com palavras ritmadas
não seria realizado.
Sou amigo da tarde de inverno.
Sou amigo das notas que
esquecem um coração demasiado cheio
e de todas as coisas que
estão para além dos meus limites.
Sou amigo da tarde de inverno
que me dispõe ao poema
e soube finalmente que
o próprio poema não é possível.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
BATERÁS DUAS VEZES
Baterás duas vezes
e eu abrirei
e não quererei acreditar
que sejas tu.
Entrarás num andar
que desconheces
e que é feito apenas
para sobreviver.
E aí me encontrarás,
quem sabe
porque estranho desígnio.
Entrando
na sala de jantar poderás
ver o teu retrato
e os nossos livros. Soará
o Nocturno.
Folhearás, quem
sabe, Virginia Woolf.
Virei atrás de ti
com o desejo
de sentir no meu rostro
os teus cabelos.
Sentar-te-ei com infinita
ternura
num dos velhos sofás
compartilhados
(onde estudavas nos últimos
tempos
um longo monólogo
de mulher
solitária — o que
nunca foste). Espiarei
os teus olhos, o triste
sorriso
dos teus lábios
amáveis, entreabertos,
e tudo acabará com
um abraço
que será o primeiro.
Deixará de haver
passado ou futuro. Tudo
será lógico.
E este poema nunca terá
existido.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
AMPLOS SÃO OS CAMINHOS...
Amplos são os caminhos
que sob o sol
vão à minha
frente colocando paragens felizes
onde um galo canta atrás
de uma grade com heras
que mal escondem árvores
cobertas
da poeira das cidades e
um telhado com musgo.
São amplos para
que neles caiba o desejo
daquilo que possuí
sem o saber.
Ampla é a ponte
e muito alta. Em baixo
as minúsculas hortas,
as barracas frágeis,
o espantalho, a casa caiada
e as brisas que tão
dentro penetram.
É a visita que queríamos
realizada:
são os caminhos
abertos, os caminhos amplos
para a alma que não
conhece ainda todos.
Perto da casa dos avós
repousamos
entre árvores anãs
e relva descontínua.
São caminhos reais
da alma real,
caminhos de sonho quando
os vejo nos teus olhos.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
ñ
|
|