Pere
Gimferrer
(Barcelona, 1945)
ASSOCIO
A CHUVA AOS MORTOS...
VIGÍLIA
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ASSOCIO A CHUVA AOS
MORTOS...
Associo a chuva aos mortos.
Vem muito lenta,
com os nardos e os tubérculos,
com o frio dos líros
e os grumos pastosos da
terra lavrada,
com as nervuras das folhas,
as sombras,
com o voo da codorniz e
o grito do mocho.
Pela terra dentro, pelo
tempo dentro, no coração
do barro, quem sabe deles?
Esperam porque é esse
o ciclo da fecundidade.
O machado, enterrado,
brilha com a mais viva
prata, com um fogo mineral.
Essa é a lei. A
chuva lava os sulcos
de rodas na terra, de tantos
carros que passaram,
e passadas de humanos e
cavalos. Um bafo cinza e líquido,
uma claridade afogada,
como aço escuro e opaco,
sobre a terra empapada.
Não ouves estas vozes,
os risos das raparigas
num meio-dia de Agosto?
Não vês esta
blusa vermelha? Como a raiz,
a mão ainda escava
na terra húmida, dedos
como garfos, secos, de
árida pele
como papel de embrulho.
Não, a chuva não chega
a este reino. Cai muito
lentamente, conhece
com profunda piedade o
tronco da oliveira
e brune a angulosa aspereza
da pedra,
e, na laguna, desbrava
as águas pantanosas,
coléricas de fumo,
e humedece o covil
da raposa, a lura do coelho
e o ninho do rouxinol.
Mas não chega, sob
a lama empapada,
sob o terrunho de humildade
porosa,
de paciência e de
luz, ao mais escuro reino,
ao país de rancor
e secura dos mortos,
que ainda alongam mãos
hostis, ferruginosas,
dentes carcomidos e sexos
erectos e convulsos,
mumificados, e com avidez
de unhas e de pó
rasgam a pele. Querem possuir-nos
ou apenas pedem para voltar
a ser? Pedem
crispação,
tremura e sofrimento?
Pedem acaso a incerteza
diária, sentirem
que o desejo os sacode,
a pancada da pânico,
a fúria
do domínio, o receio
da derrota?
Acaso se atrevem a querer
sobreviver?
Como vive a raiz, como
vive o tubérculo, como vive
a erva, nunca poderão
viver os homens
conciliados com um destino?
Não aceitarão o cielo
do tempo fecundo e o do
regresso à terra?
Por tanta dor que já
passou,
pelo instantáneo
ardor de tantos corpos,
por tudo o que esta luz
de chuva nos recorda
e este sabor da terra recém-molhada,
pela vibração
do ar quando a chuva
parou há instantes
e um pássaro ergue o voo
num silêncio claro,
e por esta cor
do pássaro, indeciso
no azul, que gorgeia
quando o céu é
mais nítido, pelo sofrer
que recordamos e pelos
amores de antes,
e pela humilhada inocência,
e pelos desejos nunca confessados,
por tudo isso: nunca teremos
uma palabra?
A chuva entra nos palheiros
das velhas casas de lavoura,
a madeira apodrece, abre
sulcos de água na terra arável
e nutre os narcisos. É
cor de cinza
e, nos vidros das janelas
tem a cor das memórias.
Há apenas um tempo.
O tempo do homem
e o tempo do animal e da
planta
e o tempo da pedra são
um só. Este falcão
que agora, fulminante,
cai do alto do céu,
sabe onde vai, como a pedra
que no fundo da cisterna
vê o seu destino
num relâmpago de águas.
Subitamente o vêem,
e os anula,
e os possui, e chegam ao
resplendor: atingem
a fulguração
do ser. Chegam assim
a ser o que são.
Fiéis, silenciosos,
como o chaparral queimado
pelo sol, dizem que sim,
sabem que é sim,
que esta imagem
— o brilho de uma água
morta, ou, ao cair da tarde,
um lugar de sombras no
coração do outeiro —
é o que são,
chama-os, para morrer ali,
e esta morte será
um ter vivido,
não uma interrupção,
nem sequer uma espera.
Dizem que sim, sentindo
que não é para lamentar
nada, que nada têm
a esperar, que nada se mutila
porque já tudo existia
antes: Viviam
sempre o tempo do lugar
de sombras
e o tempo da água
morta no fundo do poço.
Quando passamos, de noite,
junto ao rumor
que o vento ergue na folhagem
dos choupos,
ou, na iluminada glória
do meio-dia solar,
recolhemos, num cacho de
uvas, a claridade,
ou semicerramos os postigos
— o sol
é um martelo nas
ruas desertas — e um corpo
nos fornece um alento cálido
de limões,
ou, quando, pela mata,
vemos uma pedra vermelha
ou ouvimos um estalar de
ramos e de águas
sabemos que tudo será
esse único instante?
Acaso esperamos algo mais?
Sem memória,
desapossados, o tempo já
não nos ofusca
com um espelho sob o sol,
já não nos
fere os olhos com luzes de feldspato.
Eu sou o meu ontem e sinto
a eminência
do futuro que pulsa em
cada gladíolo.
Não nos espia atrás
do instante: é o instante.
Não tem o escuro
rosto do nosso receio
nem deverá ser-lhe
pedida piedade. Não sentíamos,
desde sempre, que o trazíamos
connosco? Desejo,
tu, negro escravo com máscara
de príncipe,
e tu, princesa branca e
cega, paixão
que ris vestida com a claridade
dos lírios,
não sentis que o
instante é o vosso tempo?
Nada ganhamos, nada perdemos.
Os mortos
vivem o tempo eterno e
nocturno da névoa,
o instante que é
todos os tempos. O tempo
do desejo e da paixão,
o tempo de recordar
e o tempo de sonhar. Os
vapores da névoa
e uma fumarada como a da
lenha verde
informam onde estão
os nossos sonhos: longe,
como os relâmpagos
numa noite de estio.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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VIGÍLIA
E nunca nunca mais poder
falar a taça, o
casco, a coisa
que partiu o vidro, inútil
peso das imagens de ontem.
Nenhuma destruição
de linho
poderá dizer a cor
da rosa
que esmaga na pupila fechada
o triunfo da luz de um
clarim.
Nunca mais isto poder dizer,
não poder dizer
pelo avesso
a ternura da pele clara,
os lábios, os sulcos,
o beijo, o ventre,
os corpos ao assalto; e
depois
não poder nunca
repetir!
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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