Josep
Maria Llompart
(Palma de Mallorca, 1925)
AMARAM-SE,
SOUBERAM...
SOU
CIDADÃO DE UM DÓCIL TERRITÓRIO...
CAMINHO
DA FONTE
AMARAM-SE, SOUBERAM...
Amavam-se, sabei,
VICENTE ALEIXANDRE
Amaram-se; souberam
a urgência do sexo,
como as veias
num momento se podem encher
de água
salobre, de sol estival,
de peixes
voadores.
Escondiam-se
na noite do pinhal ou pelos
mornos
cantos de sombra.
Sentiam, fatigados,
o rumor da borrasca ou
o longinquo
zumbir da cidade.
Ao acordar pela manhã
ela acreditava
sentir no quarto um perfume
de rosas,
e ele pensava o primeiro
verso
de um poema que afinal
nunca escreveu.
As bodas foram muito excitantes.
Têm um filho notário
na península
e uma filha com noivo.
São gente a que
chaman respeitável.
Regressam a casa ao fim
da tarde, vagarosos,
saboreando, cansados, o
crepúsculo.
Algumas vezes os olhos
se lhes perdem,
com uma ponta de impaciência,
entre os ramos
das árvores da rua,
como se buscassem
um resto de vigor ou de
carícia.
Olham os anos, o céu,
as horas
secas,
o relógio e a poeira.
Caminham. Calam.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
SOU CIDADÃO DE UM
DÓCIL TERRITÓRIO...
Sou cidadão de um
dócil território,
obtuso habitante de fulminante
aldeia;
vivem em mim inominadas
mortes, confusão
de estandartes sombrios,
fantasmas de lura.
Irado e louco, pregador
enganado,
escrevo o nome ardente
com marfim e piche:
tabuleiro de xadrez onde
tomam posse
ânsias, afãs,
com férreo clamor.
Sou verme condenado, humilhado,
atrás
de vaga ardente em mar
de limo e lama,
grito na noite, espera
desesperada,
e sigo adiante, para além
do negro e branco,
alma adentro, arvorando
a bandeira:
sobre amarelas dedadas
de sangue áspero.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
CAMINHO DA FONTE
Sedentos veados
pelo pinheiral,
no bebedouro abriam-se
os montanhosos cumes.
Veados que bebiam
com focinhos trémulos.
A amiga chegava
buscando o amado:
pérolas orvalhavam
faces de coral.
Veados afastavam-se
no entardecer suave,
a água sussurrava
na sua solidão.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
ñ
|
|