Maria
Mercè Marçal
(Ivars d’Urgell, 1952 -
Barcelona, 1998)
CANÇÃO
DE FAZER CAMINHO
ADEUS
AO MACHO
A MORTE
DO PAI
CANÇÃO
DE FAZER CAMINHO
A Marina
Queres vir à
minha barca?
A transbordar de violetas!
Iremos longe sem nos pesar
aquilo que aquí
deixamos.
Sem saudades iremos longe
— seremos duas, seremos
três.
Podeis vir, vinde à
nossa barca,
a vela alba, o céu
aberto.
Todos os braços terão
seu remo
— seremos quatro, seremos
cinco! —
e os nossos olhos, astros
dispersos
os seus limites esquecerão.
Março conduz-nos,
a ventania,
as loucas nuvens do coração.
Seremos vinte, ou já
quarenta,
a lua será nosso
estandarte.
Bruxas de ontem, bruxas
do dia,
no alto mar nos acharemos.
Em tudo a vida brotará
como uma dança vegetal.
E sob a pele de onda salgada
seremos quinhentas, seremos
mil.
Até que a conta
perderemos.
Juntas faremos nossa a
noite.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
ADEUS AO MACHO
Porque te agudizas, direito,
para a pequena morte
que te espreita no recanto
desta paisagem sem horizontes?
Porque assinas a fogo a
escada do relógio?
Não. Vem como um
rio transportador de luas!
Estica-te prazenteiramente
sob os toldos de névoa.
Saúda as folhas
da erva, o odor do pão, a argila.
Alinha seixos em taças
sem fundo.
Desfaz-te, suave, por cântaros
e ribeiros.
Lagartixa voraz, bebe o
sol e a chuva,
o esponjoso da lã
que recolhes das nuvens,
a vivacidade dos cavalinhos
do demónio, o silêncio
e os tesouros que o acaso
forja nas récuas.
E reflecte-me, aberto, do
poço até ao delta,
onde esquecemos o aquí,
inundados de amor e água.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
A MORTE DO PAI
Toda a mulher adora um fascista...
SYLVIA PLATH
Aquela parte de mim que
adorava um fascista
— ou o adora, quem sabe?
—
jaz contigo, jaz contigo.
O túmulo não
a espanta. Desde sempre chamada
ao mais escuro domínio,
morre contigo, vive de
ti.
Oferenda trémula,
sabe apenas seguir-te
e agasalhar-se no teu mal
como no porto mais seguro.
Medusa desossada, o que
de mim resta
luta por completar-se
sem ti, longe de ti.
O bisturi vacila. Quem vive
mais além?
E como poderei pensar-te
como se eu não fosse
tu?
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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