Joan
Margarit
(Sanaüja, 1938)
TANTAS
CIDADES ONDE QUERÍAMOS IR
PRIMEIRO
AMOR
TANTAS CIDADES ONDE
QUERÍAMOS IR
O nosso sonhar é com
cidades cultas
com música e cafés
hospitaleiros,
a majestade de um porto
e estações
de ferro e de cristal
com os comboios polidos
pelas noites
e pela chuva, pela mesma
chuva
que num pequeño
hotel ou nas janelas
de um museu nos faz companhia.
Há recantos à
sombra de grandes árvores
e estátuas de olhar
interminável;
gente cordial, calada e
bem vestida
e livrarias silenciosas,
onde
os olhos vagueiam enquanto
escurece
e o sonho se deslumbra
nos faróis.
Tantas cidades onde queríamos
ir, amada!
A lua sobre aquelas pontes
de ferro
dos anos em que se alterava
a nossa lei.
Desde então o tempo
é uma chuva
que nos empapa como a um
grande telhado.
Mas na luz do pátio
encontramos
templos de branco mármore
e dourado
travertino. Encontramos
nos pequenos povoados
faustosos estuques cor
de terra
arranhados pelo vento.
Todas as viagens
foram feitas no silêncio
das vinhas
cor de cinza, banhadas
pelo sol de inverno,
de Solivella a Rocafort.
A casa
da grande varanda e pátio
trazeiro
será o nosso repouso
e, de nós os dois,
o que ficar terá
os lírios e as horas
para lhe servir de memória
e companhia
até que nos encontremos
nas cidades do sonho.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
PRIMEIRO AMOR
Na Gerona triste
dos meus sete anos
onde as vitrinas do pós-guerra
tinham uma cor cinzenta
de penúria
a cutelaria era um estalido
de luz nos pequenos espelhos
de aço.
Com a fronte descansando
no vidro
olhava uma navalha longa
e fina
bela como uma estátua
de mármore.
Como não queriam
armas em minha casa
comprei-a em segredo e
no bolso
batia-me, ao caminhar,
na coxa.
Por vezes abria-a devagar
e aparecia a folha fina
e direita
com a conventual frialdade
da arma.
Silenciosa presença
do perigo:
nos trinta primeiros anos
escondi-a
atrás de livros
de versos e depois
numa gaveta entre as tuas
cuecas
e entre as tuas meias.
Agora, prestes a fazer
os cinquenta e quatro
volto a vê-la aberta
na palma da mão
tão perigosa como
na infância.
Sensual, fria. Mais perto
do pescoço.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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