Miquel
Martí i Pol
(Roda de Ter, 1929)
METAMORFOSI,
1
SE
FALO DA MORTE
NEM
ME TOMAS, NEM TE TOMO
METAMORFOSI, 1
De vez em quando a morte
e eu somos um,
comemos pão da mesma
fatia,
bebemos vinho do mesmo
copo
e compartilhamos amigavelmente
as horas
sem dizer nada, lendo o
mesmo livro.
De vez em quando a morte,
a minha morte,
faz-se-me presente quando
estou só em casa.
Então falamos tranquilamente
do que acontece no mundo
e das raparigas
que já não
posso ter. Tranquilamente
falamos, eu e a morte,
dessas coisas.
De vez em quando, só
de vez em quando,
é a morte quem escreve
os meus poemas
e os lê para mim,
enquanto faço de morto
e a ouço em silêncio,
que é o modo como
quero que a morte escute
quando eu leio.
De vez em quando a morte
e eu somos um,
a minha morte e eu somos
um, e o tempo
desfolha-se lentamente
e partilhamo-lo,
a morte e eu, sem altas
demonstrações,
dignamente, dito assim
para nos entendermos.
Depois as coisas voltam
ao seu lugar
e cada um de nós
retoma o seu caminho.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
SE FALO DA MORTE
Se falo da morte é
porque morro
e afinal vale mais falar
das coisas
que se conhecem intensamente.
A minha
morte, por exemplo, bem
conhecida a tenho,
há muito tempo que
convivemos e ainda
conviveremos muito tempo,
até que se resolva
de uma vez por todas o
pleito que nunca oferece
fundas surpresas a pesar
do alvoroço.
Será então
o momento da alegria
e haverá alguém
que me faça o panegírico
(em catalão, por
favor, e em decassílabos)
que eu, morto, ouvirei
respeitosamente.
Entretanto falo da morte,
talvez
por ser o que tenho mais
vivo e mais próximo,
para não cair em
discursos pedantes
que, ao fim e ao cabo,
não levam a parte alguma.
Falo pois da morte, e além
disso morro.
A ninguém se pode
pedir maior honestidade.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
NEM ME TOMAS, NEM TE TOMO
Nem me tomas, nem te
tomo. Traça o perfil
de um gesto e tanta luz
se povoa do teu corpo
que já a luz és
tu e todas as cores
se precipitam e confundem.
Incitados,
chegamos a ser a ponta
de um só grito,
de um desejo, um só
pressentimento.
O silêncio vibra.
Chuvas e metais
misturam os sons.
Tensa a espera. Tenso
o arco do teu corpo e também
acolhedor.
Entro em ti, Marta, ternamente,
e cresce
em ondas lentas o prazer,
poderoso,
até alcançar
a funda plenitude,
a gruta clara sem eco.
Mostras-te pura e obscena.
Tens os seios
suaves e erectos e eu beijo-os.
Tu
sorris apenas. Gemes e
acolhes-me.
Docemente, eu repito o
teu nome.
Translated
by Egito Gonçalves
Quinze
poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.
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