Joan
Navarro
(Oliva, 1951)
FACA NA
CABEÇA
A
PALAVRA NÃO É O SER
FACA NA CABEÇA
HOFFMANN: Hoffmann não é Hoffmann.
P. SCHNEIDER
I
Dor do discurso quando as palavras te podem servir de veneno e de mortalha,
canivete que se crava no mar. Pátria do excremento e do amor. Por
que me espreitas em hora criminal? Adornado de máscaras passeio
pelas ruas. Farsante e raivoso. Todos os reis comiam em mesas bem dispostas
ao claro do bosque. O cervo fora caçado. Uma rainha, desde as torres,
se lançava aos prados do seu domínio. A adivinha tira as
cartas em um campo de neve. Alguém, receoso, desde a solidão
extrema gritava: Elí, Elí, lemà sabactani? Um raio
cruzou o infinito.
Tormento da palavra que te dita os seus espaços, os claros limites
da sua pertença. E tu, estimado, sabes que lhe pertences. Cativo
naquele galeão. A lua iluminando a escuridão de todas as
esferas. Prisioneiro para sempre. Por que não deixei nunca de escrever
o mesmo discurso? Se te aproximas sentirás como palpita o mar. Os
navios morreram à aurora nas criptas das catedrais.
II
Eis aqui o sinal. A chaga. As pegadas que os pés da Senhora deixaram
sobre o campo. O colar entre os lençóis. A farinha levemente
manchada. Os lábios do amor dormindo o amor. Os galos nos currais
chocavam as penas. O Cavaleiro mataria o dragão de quatro cabeças.
O amor tinha o seu duplo. Estimar até o desejo de morte. Mata-me
de vida! A barqueta atravessando as águas, e ele ferido. A melancolia
arrasta os dias do Cavaleiro. O amor se via amor ao espelho. Eis aqui o
sinal. Hoffmann ronda a solidão do seu laboratório. Sem dúvida
o pensamento de matar-se não é mais que o reverso do desejo
de matar. Um americano, na minha situação, dispararia de
olhos fechados pela janela. Quem não foi nunca Hoffmann? Imaginai-vos
que um bom dia foste pela rua buscando quem em um tempo vos estimará.
Imaginai a imagem do vosso amor; um golpe seco e o vosso corpo às
portas do infinito. O cérebro como um grande campo de gelo, sem
luzes nem patinadores, só uma poça d’água fria. Imaginai.
Pobre Hoffmann, lhe furtaram o passado e ainda querem furtar-lhe o desejo.
Uma faca ceifa-lhe os campos da memória. Um tiro. A sua história
feita bocados pelo solo. Como me agradaria estimar-te agora, Hoffmann!
III
Fechas os olhos e sonhas todas as selvas. Escrevia o teu nome para as paredes
de Praga, e não te conhecia. Só sabia dos teus olhos. Messer
im Kopf. O discurso estava a ponto de queimar-se e iniciar-se. Amante do
olvido, planejavas o território da estima. Os signos se dispunham
corretamente no céu. Sete planetas nos vigiavam. Hoffmann percorre
a cidade que fede vergonhas alheias. Nos poços se incendiava o teu
amor, Aschenbach. O nosso amor aos fornos abissais daquelas águas.
O nosso amor à sombra aquelas velas, e o mar...
IV
Deito pedras pelos campos da terra e do céu. Me limitais e limito.
Busco ossos nas cascas dos ovos e não os encontro. Oh, Senhora,
por que não abandonais o véu que vos vela o olhar? O meu
amor vai morrer na cidade das torres. Por que quereis separar o cânhamo
desta corda?
Translated
by Eduardo Sterzi
Cacto,
poesia & crítica, núm. 2 São Paulo 2003.
A PALAVRA NÃO
É O SER
A palavra não é o ser, mas é. O rio não fala,
mas tem voz. O mar não é de água, mas nos lava. O
discurso não é a imagem do cisne ao espelho, é o espelho,
a bruma, o grito que se afoga nos canaviais, marulho de socorro, uma mão,
um corpo que se torna barco, pasto de vermes, os olhos que nos vigiam de
trás dos cortinados de matagal. É o espaço do truão,
caixa de deus.
Partiste à cidade torreada, a dos toldos aos pórticos, a
que não conhece o mar, nem os navios, nem os molhes.
Partiste e deixaste a cidade vazia de corsários.
Ouvistes a voz dos abismos? A voz das tílias?
Ah, sois vós e não eles os que falam. A noite não
fala, nem os barrancos, nem as aves, nem tão só a palavra
fala.
Já o diz o livro sagrado: Por que perguntas pelo meu nome se é
segredo? Os homens azuis do deserto não conhecem o nome de Alá
porque é segredo. Ninguém conhece o seu próprio nome.
Translated
by Eduardo Sterzi
Cacto,
poesia & crítica, núm. 2 São Paulo 2003.

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