Francesc Parcerisas
LA IL·LUSTRACIÓ POÈT&K METROPOLITANA & CONTINENTAL
Plurilingual Anthology of Catalan Poetry
Português

 
Francesc Parcerisas
(Begues, 1944)


JUVENTUDE INSOLENTE
CABEÇAS ROMANAS
CIRCE

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JUVENTUDE INSOLENTE


Agora podes ver como saem das aulas,
olhos cintilantes e gritos de euforia,
suados eles, elas com descarados seios como limões,
e páras a olhá-los, maravilhadamente confuso,
pensando no que afinal te atrai, ainda,
nessa ostentação, louca e insolente, de juventude.
Bem o sabes, seguirás o teu caminho
e eles passarão bruscamente, sem te ver,
rajada de lábios carnudos e corpos morenos,
para sempre irrecuperáveis, sorridentes e exultantes,
deixando-te apenas o teu desejo, a sempre inútil inveja.
É a luxúria da mente que acaricia
a dos corpos, o saber que ainda esperam,
a doce-amarga revelação da experiência?
Ou é, precisamente, compreender que não há nada
que possa evitar também eles caírem, lentamente,
na velha ratoeira de se irem resignando ao bem e ao mal
enquanto acreditam, enganados, que se començam a conhecer?

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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CABEÇAS ROMANAS



Ei-los aquí: o césar conquistador de territórios,
o lictor com o feixe que o dignifica,
o cônsul togado, o fosco soldado, o escravo africano.
Todos dormem por igual, gélidos, um pouco bafientos,
sob este sonho distante e imprevisível
com que a agulha do tempo nos atravessa.
Porque acaso então nos maravilha agora
este mármore nítido, duro, cruel,
e admiramos, assustados, mudos de respeito,
estes poderosos e bárbaros destruidores de templos?
É-nos indiferente que buscassem o bem ou o mal,
e sabemos isso: as paixões gelam-se no mármore.
As cabeças deles, impávidas e imortais,
são na pedra, apenas, a pátria naufragada.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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CIRCE


Termina a carta e fecha o envelope. Sabes que o tempo
se distancia como a pedra e tentas o exorcismo
daquilo que não tens ou já perdeste, como se estivesses
ainda na cabine onde costumavas telefonar
para alongar na noite o teu prazer selvagem.
De que negro rio verás que se aproximam, agora,
os passos oscilantes da jovem primavera?
Permite que ela te meta na sua mochila de cores,
que te rapte, se necessário, e também te transforme
num fantasma sem dons que pasta bolotas
em vales da longínqua aurora, intolerável.
Nunca poderás saber se orgulho e compaixão,
se vergonha e temor tiveram algum sentido
na corrupta ordem das tuas decisões.
Nunca poderás saber se foste um daqueles marinheiros
resignados a voltear em carne e sangue em torno da chama
ou se és o escolhido dos deuses que atravessará o averno
e engendrará três filhos no leito púrpura da deusa
que agora, em plena noite, desce as escadas a correr
para te abrir, submissa e feliz, o portal da sua casa.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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