Josep Piera
LA IL·LUSTRACIÓ POÈT&K METROPOLITANA & CONTINENTAL
Plurilingual Anthology of Catalan Poetry
Português

 
Josep Piera
(Beniopa, 1947)


EPÍSTOLA OU CANÇÃO À PROCURA DE MÚSICA
LA DROVA
A ÚNICA POÉTICA
ODE A SANTORINI

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EPÍSTOLA OU CANÇÃO À PROCURA DE MÚSICA



Amor, bate à minha porta.
Como vibra um instante a vidraça
quando o vento acaricia o rvoredo,
assim te espero eu, oferecida palabra, prazer.
Amor, bate à minha porta;
não te espantem os ladridos do medo;
espero-te
como só tu sabes, imagino.

Nunca é longa a espera, nem é silêncio,
se hás-de vir, amor meu, a procurar-me.

Virás ver-me, amor?
Outra vez pelo menos, uma só vez
se quiseres, uma carícia,
uma palabra, ver-te, sentir-te
como um fogo a respirar ao meu lado;
sorrir contigo, ouvir
o desejo a enrugar os lençóis do silêncio,
no interior da música do tempo,
harmonia de nuvens no fim duma janela,
e os teus lábios, amor, os teus lábios,
uma fonte, uma nora, uma feira de prazer;
e as mãos
e canções e paixão e um contacto de roupa,
leve perfume que desperta,
uma brisa de estio, só isso, apenas
um prelúdio de início ao tacto da pele.

Sabes como te amo, amor amigo amado,
criatura de sonho, duscíssima ficção.

A minha mente, atenta, toda
para te sentir ao lado, para ouvir
as tuas palavras, precioso espelho do amor.

Bate à minha porta, amor. Bate à minha porta.
Espera-te em meus braços todo o prazer do mundo.
Vem.
Na hora ou dia ou instante ou vida que decidas pedir-me.
Não sabes, talvez,
com que urgência hoje te chamo.
Espero-te.
Encontra-me.
Vem.
Abraça-me.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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LA DROVA



Meio vale está a olhar-me
                                   (lua dourada de melão no estio)
e, perante a visão em cinemascope
desta paisagem verde de lado a lado, penso
que dela sou filho, grito hoje, herdeiro amanhã, depois cinza gloriosa.
                                   Isso é certo?
Ou é apenas alucinação, embora discretíssima
daquele conceito antigo que chamamos beleza?
                                   Não recebo resposta
agora. Nem nunca
porque na dúvia sempre me repito.
Que importa
afinal converter-se em miragem!
                                   O que tenho diante
(fatia vermelha de melancia à beira-mar)
                                    chama-se assim LA DROVA.
E isso basta.
Não sei como vo-lo dizer.
É mais do que uma aldeia no meio de montanhas,
muito mais que uma palabra arcaica e muito cordial,
é mais do que toda a infância à janela,
muito mais que um paraíso de vozes e pinhais.
Não sei como vo-lo dizer.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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A ÚNICA POÉTICA


 

Dentro de ti, palabra; dentro
o prazer, poema; dentro de vós,
beleza; dentro de ti, árvore de fogo,
dentro.
             Escrever assim.
E isso. Apenas isso. Candente.
Na lareira adormecido,
lábios de sal e corpo incinerado,
saído de um naufrágio, marinheiro
regressado ao lugar onde os homens morrem,
homen tu,
viajante de imensidades esperançadas.

Assim. E isso. Nada mais.
Dizer a palabra.
E estalar entre músicas.
Acima.
Não importa que os degraus de vidro se te cravem.
Para a luz cimeira, a limpa neve.
Não és tu quem renasce
da chama no fumo, nuvem feita chuva?
Ascende, tranquilo, uma vez mais acima.
Cresce. Rompe e renova o ar.
Morde-o e cresce. Até onde querias.
Assim e isso. Nada mais.
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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ODE A SANTORINI



O obscuro prazer ardente que procuro
por este mar de luz e de esperanças,
prazer de ser aquela criança de estrelas
que um dia sonho de anjo se sentiu,
trouxe-me aquí, qual navio à deriva,
até ao teu porto de escarpadas cinzas,
lua azul do Egeu, adormecido
fogo que, como a ave, renasce ao imolar-se.

Ilha do céu, nascida da chama,
deserta de verdes e fértil de hecatombes,
tanto te desejava, tanto te queria
que antes de possuir os teus abismos
já como eras te amava, filha da aurora
com vinhas à vida bem ferradas,
riscos de machado, praias de lava gélida,
onde, como as rochas, o homem chora e canta.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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