Jaume Pont
LA IL·LUSTRACIÓ POÈT&K METROPOLITANA & CONTINENTAL
Plurilingual Anthology of Catalan Poetry
Português

 
Jaume Pont
(Lleida, 1947)


QUANDO A SOMBRA...
POSSUIR O INSTANTE
CARPE DIEM
ANTONIO RANIERI PERANTE O TÚMULO MORTUÁRIO DE GIACOMO LEOPARDI

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QUANDO A SOMBRA...



Quando a sombra
recorta com fervor a derradeira unha do dia
e a ave abandona, obscura, o firmamento,
quando a lua
espia de um tempo de despojos, beija, húmida
a pedra encarnada do sol, com passos silenciosos,
oficiante da heráldica amarga e brilhante
que só a antiga claridade conhece,
                                                        o poema acontece.
Um gesto de combate perpetua-nos a história.
Anseio inútil. Devastação de espelhos na sombra.
Sob a lua brilha o fluor
que denuncia:
                        mãos enluvadas, cara enfarinhada.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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POSSUIR O INSTANTE



Possuir o instante.
Agora: mais funda a ferida,
mais aberto o mundo e o domínio do ar.
Ouves a música,
a antiga harmonia do pó e da pedra?
Direis que tudo se torna a imagem cega
de um bosque deserto, sucessão residual
das vidas e das mortes. Direis.
Diria que as mãos se fundem no derradeiro
reduto da sombra,
asa sem pássaro e voo sem asa. Diria.
Quase a transparência muda da paisagem,
o anseio do lábio,
a voz e o eco, quase a humilhação de um céu
que se perde entre a matança suave e escura
do matagal.
Quase a morte:
                         Oh fugaz memória do instante!
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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CARPE DIEM

 

Como aquele pobre pássaro que debica
as romãs abertas do jardim
vens recordar-me a miragem fútil
da vida:

o ardor do desejo em cada grão,
por cada um dos teus beijos a estirpe
com que o sonho embeleza o meu sudário.



Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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ANTONIO RANIERI PERANTE O TÚMULO MORTUÁRIO DE GIACOMO LEOPARDI



Do fundo da alma
chegou-lhe apenas a palabra dos mortos
e uma maldade de sinos amansada
na névoa do tempo
Foi hóspede de pequenos países
e lírico dono de terras por chegar
Ao fim e ao cabo avaramente
a história fez delas a sua provisão
Gritai agora vós
doloridos muros da cidade de Nápoles
ou mudos barcos ancorados
sob a lívida luz da Torre del Greco
Gritai e cantai a glória deste nobre
senhor a quem deviam chorar todos
os poetas órfãos do futuro
Sabei que não teve melhor amiga
que a imagem desfalecida na profundidade
secreta do espelho
Foram assim grandes a sua solidão
e a arte com que embelezou a sua mortalha
a dupla harmonia
daquela dor à qual se manterá ancorado
para sempre
o malogro da memória:
sob o corpo infiel
a razão pagã da existência
com a pena porém
o enigma inalcançável do seu reino.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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