Jordi Sarsanedas
LA IL·LUSTRACIÓ POÈT&K METROPOLITANA & CONTINENTAL
Plurilingual Anthology of Catalan Poetry
Português

 
Jordi Sarsanedas
(Barcelona, 1924)


FESTA MAIOR DE TI
NOCTURNO
VENTO COM PALAVRAS














 
 
 

FESTA MAIOR DE TI



Mil bandeiras de giesta
engalanavam o meu terraço.
O sábado fez limpeza.
Domingo: os sinos repicam
pela lonjura do céu.

É festa porque és bonita,
e o mundo inteiro sorri.
De algures a música chega
num ambiente estival.

É festa porque te quero
e nos teus olhos me perco
e nos teus olhos caminho
por ruas negras de gente

multidão que ri e canta
enquanto dança a giganta,
plebeia e princesa a meias
em festa ardente de azul
o sol rufando tambor.

É festa porque me queres.
Em cada varanda, colchas.
Ramos de cravos ao alto
dos choupos e campanários.


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

 
 
 
 
 
 


 
 

NOCTURNO



Venho da rua. Subo a escada. Fecho a varanda.
Acendo a luz. Abro a varanda. Apago a luz.

Porque ladram, sempre, todos estes cães?
E se calam, um após outro, até ao derradeiro
ladrido, agora subitamente submisso?

A noite acolhe-me, engalanada de águas,
e desdobra a praia, tão longe, do sono,
com cavalos negros que pisam a cintilação
da areia molhada.

A noite é âmbito, triedro, silêncio.
Eh! Tu!

A voz de estanho me chama,
mortiça, do fim da rua
e o candeeiro que parece apagar-se.
A árvore e o vento escondem-o e devolvem-no
entre feixes de escuridão.

O estanho o peltre, o zinco,
uma prata velada, rouca,
aquela rouquidão de sangue antiga.
Cristais, carvão.

Cada onda relincha e flameja crinas.

Eu finjo-me surdo. Ou também
sou o estorvo de estopa na garganta do vento,
a rouquidão da prata.

Se não fosse por mim...

Fecho a varanda. Acendo a luz.
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

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VENTO COM PALAVRAS


Quando o vento passa pela flauta,
é preciso que os dedos se movam.
                                 Refrão


Vem agora o momento em que o céu suspira.
Lento lento se anima, lento lento.
Chano chano, depois,
chano chano, como sopra!
Sopra, assobia, sopra, range...
Encrespa-se como entende...

As canas, e como se dobram!
E uma delas partiu
de tanto pentear nuvens.
Uivos muito brancos, inteiramente.
Uivos inteiramente muito azuis.
Arranhados.
O vento, com inumeráveis
finíssimos pés de areia
assobia e guincha.
Ou sem pés: a pança da serpente
feita de ar dirigida ao ar.

Agora ponho os meus cinco sentidos
nas aberturas do vento,
cinco dedos,
para fazer do vento melodia,
sentido, memória,
deste vento que passa e sopra
e assobia como espadas.
Caramba, cortei-me
e um fio de sangue, na ponta do dedo,
alonga-se como um cabelo, foge e desgrenha-se.

O meu sangue é vento,
e todas as árvores cantam.
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.


 
 
 
 
 
 
 

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