Àlex Susana
LA IL·LUSTRACIÓ POÈT&K METROPOLITANA & CONTINENTAL
Plurilingual Anthology of Catalan Poetry
Português

 
Àlex Susana
(Barcelona, 1957)


O VIDRO
A DERROTA
ENCONTRO















 
 
 

O VIDRO



Como são longas as noites de inverno,
em certos lugares belos mas terríveis
que nos acolheram com aparente suavidade:
o vento sopra, chove e gela impiedosamente,
desvelo-me com frequência, perturbado, no meio da noite e
reconforta-me sentir a respiração do teu corpo jovem
que dorme, indefenso, contra o meu,
uma vez mais o espanto se apodera de mim
quando passo a mão nos teus flancos
e te sinto fria e gelada
como o vidro que nos separa do exterior:
reparo então
que não és a minha mulher
nem esta é a minha cidade,
mas espanta-me sobretudo a possibilidade
de não ser este também o meu tempo
o medo de estar exposto à intempérie
e então só posso acordar-te, impaciente,
para que de novo me coloques no nosso presente
ainda tão jovem e tão frágil.

 

Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

 
 
 
 
 
 


 
 

A DERROTA



Neva, durante toda uma longa noite neva
numa cidade longínqua,
enevoada de névoas na memória deles.
Há bastantes anos ali se casaram,
no meio de músicas, danças e sorrisos;
participam agora numa festa alheia
e contemplando a alegria dos outros
sentem a própria como un guincho:
riem mas por dentro silenciam;
bebem, mas nada sacia
a secura que lhes vai no coração;
também dançam, mas alguma coisa
os mantém imóveis no seu interior.

Não conseguem dormir, estão acordados:
cada um deles pensa na derrota
enquanto no exterior um suave manto
de silêncio branco
lhes amortalha a terra.
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

 ñ
 
 
 
 
 
 


 

ENCONTRO


A Stephen Spender

Cinquenta anos depois,
uma ensolarada manhã de Junho,
sugeriu que nos encontrássemos na entrada
do Museu de Arte Românica, em Barcelona
(«the most magnificent sollection
of what is called Romanesque Art»
dizia, entusiasta, ao seu amigo Christopher
numa carta de Abril de 1936),
cedo, aí pelas dez e meia,
mas o avião, é sabido, atrasou-se.
Reli, enquanto o esperava,
alguns dos seus poemas;
atravessaram toda uma vida, me dizia,
lentamente, cada vez mais lentamente
como um amplo rio que tudo abraça
sem violências:
a guerra de uns, a dos outros,
as pequenas contendas particulares,
memória de países e de encontros longínquos...

Passeámos depois entre frescos antigos
de remotas igrejas pirenaicas
de fortes coloridos, poderosos,
ousados sem o querer ;
comentávamos um pormenor aquí e além,
e ao sair, vendo-o e ouvindo-o
a sua silhueta levemente curvada
pela idade e as recordações
levado fui a agradecer, dentro de mim,
intensamente,
a vida que se alonga,
os destinos cruzados,
as coisas que perduram.
 


Translated by Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.


 
 
 
 
 
 
 

 ñ